O produto desta atividade emocional
nunca o filme O palhaço fez tanto sentido. várias vezes ele fala "vou só esperar as coisas acalmarem um pouco e aí eu resolvo isso tudo", mas sem nem saber por onde começar. Que década esquisita essa dos 40 aos 50, porque simplesmente não sei quem sou, para onde vou, o que vai ser, onde vou chegar, quero chegar? só sei de onde eu vim, mas não é legal. Diferente de há uns dez anos atrás, onde me orgulhava de onde parti e onde cheguei, hoje descrente do mérito, só sinto tristeza por mim mesma, por ter ficado sentada na calçada aos 14 anos pensando porque deus havia me esquecido. Às vezes é até melhor não pensar porque o sofrimento daqueles dias me desconecta de tudo que pode ser bom na vida, e que eu sei que é, mas muitas vezes fica tudo esmagado aqui e não tem um lugar seguro pra colocar sem me expor ainda mais. E eu sei que ninguém segura isso, porque o mundo se tornou um lugar pesado pra qualquer um que esteja vivo. Fico como o personagem do Selton praticamente todos os dias, torcendo pra isso passar, mas nunca passa. Pensando em falar com alguém que seja pago pra me ouvir, mas descrente da minha própria profissão, acabo desistindo. Hoje fiquei sozinha e pude falar comigo mesma, colocar em um lugar e chorar. Se as coisas não tivessem saído conforme saíram, estaria sofrendo por outras coisas, um aluguel por pagar, um trabalho me deixando por um fio, um filho com problemas reais que ofuscasse os meus, ou a solidão de não ter encontrado um grande amor. Mas, não, me sinto às vezes na beira de um abismo, não há para onde ir a não ser voltar, para trás. Em dias como hoje, eu dou o passo à frente e, como nos desenhos animados, antes de cair tenho dois segundos no ar. E nesse momento revejo a vida inteira. Aí eu me pergunto: porque insisto em ser só? mais de quatro décadas sob a mesma lógica de flertar com o que mais me apavora
outro dia estava lembrando de quando tinha vinte e poucos anos, ou seja, duas décadas atrás. Os dias eram preenchidos por um pavor de não chegar onde queria, não realizar os muitos desejos que tinha, especialmente profissionais, visto que sempre coloquei aí a solução dos meus problemas, que se resumia em sair da casa da minha família, ter meu espaço e poder viver minha vida e meus amores, meus desejos, que sempre foram sufocados ou regulados. Estou pensando agora se aquela moça pudesse ter meio dedo de prosa comigo hoje. O que ela me diria... posso supor que seria algo do tipo: "você é louca ou o que? o que você tem eu não consegui nem sonhar! tá distante até do que eu tô sonhando aqui pra gente. Abre os olhos!". Mas o que eu poderia dizer a ela? Muito acanhada diria: - o ideal é bem mais belo. Sonhos são sempre ideais, e por isso, nunca chegam a ser realizados, pois a realidade nunca chega perto da expectativa. A vida entrega muito mais vazio do que se supõe e lidar com a culpa de não ser feliz com o que se tem é pesado demais. Sinto muito, conseguimos. Mas não foi o suficiente pra preencher, pois o que completaria, nunca esteve em lugar nenhum. Você não está errada em apostar nisso que te salvou. Mas o que espera que um dia vá te completar não é um lugar, nem uma conquista, nem uma versão ideal de si mesma. É algo que não se deixa possuir. Mas, calma, o vazio não é um erro, é condição. O que espero conseguir para nós duas agora, é parar de exigir da vida que algo seja preenchido. Sem promessas, habitando o vazio e respirando na terceira ou na quinta braçada, dependendo de quanto aguentar
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